A Saga na montanha insana!

segunda-feira, 27 de julho de 2015


CIRCUITO INTERNACIONAL K21 SERIES HALF ADVENTURE MARATHON  - Etapa Maresias. 
 
Lugar que vive e inspira natureza!
 
 
 
Como eu já havia participado desta prova em 2014, estava a par das características estilo punk desta etapa. Treinei focada em morros, tiros em subidas e escadarias em Sampa. E lá estava eu em Boiçucanga uma semana antes,  só brincando de “esquenta”, investindo na musculação e nas séries de funcional. Dupla perfeita para encarar este desafio master!
 
Quem pensa que a distância de 21km nas montanhas é mais tranquilo é porque ainda não experimentou o circuito K21 Séries. Não existe etapa fácil. O espírito K21 é o maior circuito trail do mundo e é recheado de adrenalina e mega desafios.  
 
E este ano não foi diferente. Prova hard. Altimetria animal. Percurso cascudo com areia fofa, grama, terra, riacho, pedras, erosões, trilhas fechadas, tobogã, subidas e descidas alucinantes nos oleodutos, escaladas com corda e eskibum na lama. Perrengues divertidos e visuais lindíssimos!
 
 
Na sexta pré prova subi a serra e fui direto para o bar Os Alemão, localizado na avenida principal da praia de Maresias, onde estava montada toda a estrutura da organização "K21 Series" e onde seria a largada da prova no sábado. Retirei meu kit e retornei para o Recanto
 
 
Hora de descansar e preparar a armadura, todos os acessórios, suplementos, gel e cápsulas. Adoro todos estes preparativos que antecedem uma prova. Estratégia me lembra a magia do Ironman e não existe prova maior para você se deliciar montando sua estratégia de alimentação, hidratação estudando a altimetria e percurso. Uma lição e experiência que cabe em qualquer prova para o resto da vida!

Sábado amanheceu, tomei meu café da manhã reforçado e subi a Serra rumo a Maresias. Encontrei vários amigos. É lindo ver tanta gente junto, reunida para um evento tão legal, partilhando suas conquistas. Só boas vibrações.
 
Entre um treino e outro se divertir é essencial! É como encaro estas provas, como diversões e extensões dos treinos.
A largada foi dada em frente ao bar Os Alemão, às 9 horas, entre areias brancas e altas ondas. Média de 21 graus para este horário
 
 

 
Areia fofa no primeiro km de prova. Lembrei-me daquela praia imensa de areia fofa na última prova do Mountain Do Costão do Santinho.
 
No final da praia, um rio de mais ou menos 40cm, bem diferente do ano passado que tinha 1,20 com água na altura do peito que deixou os atletas logo de cara encharcados.
 
 
Após este rio era hora de brincar de escalada, uma árdua e sinuosa subida à nossa frente se agigantou muito escorregadia, e lá no topo, o apoio de uma corda para subir foi fundamental. Escalaminhada foi o que fizemos por ali. A prova das mil façanhas.
 
 
 
Estava totalmente focada na piramba, mas também curtindo as belezas do caminho. A vista era espetacular.

 
Uma descida forte igualmente escorregadia se materializou à nossa frente. Dessa vez colocaram uma corda para auxiliar a descida. Certeza que colocaram esta corda porque no ano passado eu vi uma atleta despencar ribanceira abaixo bem na minha frente, ainda bem que ela pegou o embalo do percurso novamente sem se machucar.
 
 
Depois dessa descida eu senti que não era meu dia, depois de 33 anos de corrida, outros tantos de triathlon e orgulhosa por nunca ter tido lesões em ligamentos no joelho nem na banda ilio tibial, esta síndrome que é comum em corredores de longas distâncias e ciclistas apitou feio nesta hora, e a poucos metros eu já estava na praia de Paúba com os primeiros sintomas de dor.  

Para quem ama, curte e tem prazer em correr, é duro ver a magia de corrida ficar limitada.
Desistir? Nem pensar! 
 
 

Curioso que em 2014 estava sem GPS e não tinha ideia que a esta altura tínhamos percorrido somente 7km.
A mini cachoeira que veio a seguir lavou a armadura, a alma e também tudo que havia na mochila de hidratação...ahaha
 
 
Foram alguns km entre troncos e pedras dentro do rio, escorregões e quedas e mesmo com a atenção redobrada sobraram várias topadas. Digo que meus dedinhos e meu celular são almas gêmeas e tem vida própria. Não sou eu que os deixo bater ou cair, eles que insistem em se jogarem nos obstáculos.
 
Mas voltando ao perrengue, estava facinho correr ali viu!
 
 
Logo mais, os famosos e difíceis dutos da Petrobrás, um sobe extenuante e um desce maluco, onde o melhor estilo a ser adotado em alguns trechos punks foi o “ski-bunda”, um verdadeiro tobogã a céu aberto. Aproveitei o tênis próprio para trilha, verdadeiros carrapatos que agarraram de uma forma exemplar todos os obstáculos destas subidas e descidas arrepiantes.  E como doía meu tibial, aff!!. Eu desço bem estes oleodutos, mas com dor não consegui fazer o mesmo trabalho do ano anterior, me limitei a descer bem tranquila meio de ladinho porque de frente nem pensar. A garra entrou em ação!
 
 
Posso dizer que ficamos atolados em lama, com os braços hiper dolorido do apoio estilo escorregador, mas que foi essencial nestas descidas. Muitos atletas chegaram com as bermudas rasgadas e outros estropiados pelos tombos nos oleodutos “assassinos”. Foi difícil visualizar a distância já percorrida no Garmin porque a esta altura eu já estava coberta de lama da cabeça aos pés. Delícia! Como pode alguém gostar tanto de lama assim? As “barbies” que me perdoem, mas isso é pura diversão!
 
A endorfina e a serotonina tomando conta. E eu querendo que ela me dominasse por completo para tentar esquecer o incômodo. Eu não sei o que acontece, mas depois de um tempo correndo, por uma força maior, aquela sensação de leveza e flutuação tomam conta do meu ser. E ai o pensamento voa. A corrida nos proporciona isso, ela libera sua mente e lhe permite pensar livremente. Nestas horas eu simplesmente agradeço por todas as coisas boas que vivi! Só que hoje foi diferente. Não flutuei, só tentei administrar a dor porque tinha muita corrida pela frente.
 
Depois de uma descida extra forte, chegamos a praia de Calhetas onde grampearam nosso número para controle, indicando que você já estava na metade do percurso. Aquela pulseirinha verde fluorescente do ano passado não foi entregue desta vez. 
Como tudo que desce, sobe ou vice-versa, a volta desses oleodutos foi pelo mesmo local e cruzamos com muitos atletas descendo. Nesta hora pude ver o tamanho da brincadeira estampada pelos rostos que passavam por mim, alguns alegres como eu por estarem em contato com a magnífica natureza, outros nem tanto a se perguntar: O que estou fazendo aqui?
 
Como assim? Se você estuda a altimetria antes de escolher uma prova, voce tem noção do perrengue que te aguarda e sabe se tem condições físicas de encará-la ou não. A altimetria e dificuldades da prova estão antecipadamente bem definidas a todos os atletas. Participar de provas do K21 séries e tantas outras provas de montanhas disponíveis por ai, sem preparo e treinamento específico é auto-destruição!
Fiquei espantada e ao mesmo tempo preocupada com tantas pessoas passando mal nesta prova. A montanha não é fácil, exige muito respeito, o preço de não ter um preparo, de achar que é fácil e simples pode custar uma vida.
Segui fiel aos meus objetivos ultrapassando todos os obstáculos e lutando contra todos os meus inimigos interiores. 
 
O visual da ilha de Toque Toque Grande no top do oleoduto é um presente para os olhos mas principalmente para o coração. Demaisss!!!
 
Alguns trechos entravam por pequenas trilhas e assim chegamos à praia de Praia de Toque-Toque Pequeno lá pelo km 15, o que significava mais areia fofa. É uma praia lindíssima que possui várias belezas naturais que atraem inúmeras pessoas.  Encontra-se numa pequena Baía cercada pela Mata Atlântica. O que mais chama atenção na região fora a beleza natural, é o comércio dos peixes, que é feito ali mesmo na praia, pelos pescadores, a festa da tainha e o torneio aleluia de canoagem onde dezenas de canoas realizam uma colorida festa no mar atraindo centenas de pessoas. 
 
Opa, a aventura tem que continuar e ainda tinha mais alguns km para percorrer. Sabe aquele ditado conhecido por todos “Quando suas pernas cansarem corra com o coração”? Então, fui movida pelo coração porque a essa altura já não tinha mais perna esquerda pra correr e a direita ficou limitada por tanta sobrecarga extra. Engole o choro, sem mimimi e bora lá garota! 
Meu boton de km de energia para o amigo Renato estava hiper ativado!!!
Santiago foi uma beleza à parte. Percorremos suas areias claras e finas rodeada por abricoeiros e muita mata nativa. É um paraíso, com águas cristalinas e parceis próximos a praia. Não chegamos a nos refrescar na sua bica natural de água doce no canto esquerdo porque o percurso da prova não incluía esta parte, mas as lembranças desta praia me deram um “up” final. 
 
Quantas vezes, nadando ou remando de stand up paddle na extensão de Toque Toque Pequeno rumo a Santiago, eu parei ali para me refrescar contemplando as ilhas Montão de Trigo e Alcatrazes. Sonho de férias! Santiago e Toque Toque Pequeno são praias fantásticas dos amantes de esportes aquáticos.
 
 
Em 2014, o percurso original estava descrito seguir pela encosta da praia, mas como a maré subiu pra caramba e para segurança dos atletas, a organização modificou o percurso e entramos no acostamento da Rio Santos de volta a Paúba. Este ano, fizemos o mesmo trajeto. Percorremos a ruas de Paúba visualizando a beleza desta pequena, romântica e aconchegante vila que ainda mantém o clima caiçara.  Praia de águas calmas e claras, areia branca e fofa. Em frente, a laje de Maresias proporciona aos mergulhadores aventuras submarinas inesquecíveis. Nosso litoral norte é majestoso com suas imponentes praias.
 
 
Em Paúba, chegamos à encosta já no km 17 da prova e entramos na trilha que dava acesso ao mesmo local da largada. Esta trilha é muito frequentada pelos surfistas que vão e vem entre Maresias e Paúba carregando suas lindas pranchas de surf. No topo desta trilha muito bem encravada na encosta, você tem vista panorâmica da praia de Maresias.  Dá pra curtir um visual incrível das duas praias. Fantástico!  Uma das cachoeiras mais bonitas é a de Paúba, que possui várias quedas. Para chegar lá é preciso caminhar em trilhas no meio da mata. Nesta prova não chegamos a ela, mas é um passeio que vale a pena fazer.
 
 
 A descida desta trilha foi o limite da superação porque não tinha mais tibial para me acompanhar. Ele me deixou na mão há muitos km atrás e nem sei como tirei forças para chegar em Maresias. É lógico que passamos novamente pelo rio e dessa vez eu me joguei. Limpei toda lama, as lágrimas que rolavam, mas também lavei a alma again, again e again!
Meu coração se alegrou ao ver meu namoridão depois do rio me aguardando, preocupado pelo tempo não previsto da minha prova e já sabendo que algo atípico tinha acontecido.
 
Essa sintonia é tão gratificante. Ele literalmente me levou até a linha de chegada, distraindo meus sentimentos tristes e brincando de engole o choro.
 
 

Mais 1km de areia fofa e finish.
 
Cruzei a linha de chegada com uma dor animal, mas numa excitação sem tamanho.
Eu cheguei depois de 90minutos (04:24:59) em relação ao tempo do ano passado (03:33:08). 90 minutos limitados, essa foi a diferença. É lógico que todo atleta quer sempre melhorar sua performance mas o tempo de conclusão já não era mais importante, tornou-se efêmero diante de tantos acontecimentos inusitados, a meta era cruzar o pórtico.  Dificilmente você verá um atleta de endurance desistir de uma prova, ele pode chegar maltratado, estrupiado, machucado, às vezes lesionado, mas ele vai estar lá, do outro lado da linha de chegada, se superando e defendendo sua conquista. Esse é o nosso espírito. Força e garra inabaláveis!
Fui direto para a piscina de gelo, montada ali mesmo para os atletas corajosos e destemidos. 
Que delícia de prova, mas quando você está sem dor!
Outras emoções me aguardavam, e uma delas foi colocar a medalha no peito, mais um símbolo dessa vida de conquistas e superações. A recompensa valeu cada gota de suor derramado, cada dor e todo cansaço.
Invoquei mais uma vez a guerreira K Séries!


O namoridão presente, a maninha e sobrinhas registraram todos os momentos desta grande festa do trail running nacional.  Só alegria vendo a família reunida curtindo mais uma das minhas loucas aventuras.
Loucas aventuras? Um dos melhores elogios que recebo é: Você é “Doida”!!....Lógico, doidinha por aventuras. Ficar louco de vez em quando é necessidade básica para permanecer são.
Endorfinada, agradecida e mega feliz.
 
 
A organização dessa vez não cedeu aos atletas aquela deliciosa macarronada pós prova ali mesmo no local da estrutura, que pena. Mesmo assim fiquei apreciando os atletas com sua medalha no peito a comentar sobre as façanhas desta prova tão dura e tão técnica.

Voltei pra casa da mamãe e papai toda dolorida, mas confesso que nunca senti dores tão lindas...kkkkk....Mazoquista não, sou triatleta e ultramaratonista pô! Dor e Prazer caminham juntos sempre!
 
Recovery pós prova é fundamental e começa logo após a prova. Chego ao recanto e quem me espera sorrindo? Meus fiéis amigos, o gelo e o choque dead...hehe. O desafio é o meu combustível e o gelo pós prova já desaquecida em pleno inverno foi mais um deles.
Ufa, deu tempo de me recuperar um pouco, tomar um belo banho e repor energia antes de voltar "mancatola" para Maresias e apreciar a cerimônia de premiação.
 
Guardo na memória uma recordação muito boa desta prova em 2014 onde pude fazer uma belíssima prova e subir ao pódio em primeiro na categoria, e para minha surpresa, lá estava eu no pódio novamente em terceiro lugar entre as guerreiras da categoria 50-54 com um tempo bem superior à 2014, mas com um troféu de respeito. Segunda emoção do dia. E esta teve um gostinho especial de superação, foi conquistada com muita raça. Orgulho!
Agradeci por mais esta conquista e visualizei com carinho a minha frente amigos incentivando e radiantes com a minha premiação. 
Agora é dar um tempo na corrida, cuidar deste tibial com muito carinho e dedicação, porque muitas coisas estão por vir e fortes emoções me aguardam neste próximo semestre.
Sempre me questionam como eu consigo lidar com tudo isso e estar ativa até hoje. E eu só digo uma coisa: É possível para qualquer um que esteja disponível a treinar duro investindo no seu treinamento, alimentação inteligente, suplementação, fisioterapia preventiva e descanso. O segredo dos segredos: a auto-disciplina diária!
Só envelhecemos quando paramos de nos divertir, 51 anos, muito feliz e grata por ter uma mega saúde, poder participar de mais uma aventura e viver a vida com tudo o que ela tem para oferecer.
“A coragem é como o músculo, você a fortalece quanto mais você usa. A jornada é longa, mas no final terá valido a pena.”
 
 
 
 
 
 
Roselaine Gallicio, 51 anos, é apaixonada pela vida, louca por esportes, triatleta, ultramaratonista e personal trainer, especialista em Advanced Pilates Trainning. Começou suas atividades esportivas aos 18 anos. Enquanto estiver com saúde e disposição pretende continuar firme nos meus desafios: Ironman e Ultramaratonas.
O esporte para ela é qualidade de vida, um processo de evolução e autoconhecimento pessoal. “Você passa tantas horas conversando consigo mesmo, escutando o corpo, equilibrando razão e emoção que o tempo torna-se efêmero”.
Facebook: Roselaine Gallicio
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e-mail: roselaine38@msn.com

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