História do Jiu Jitsu no Brasil – parte 8 – Carlos Gracie - por Tony Ferraz

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Carlos Gracie

Carlos Gracie demonstrando flexibilidade
O Jiu-Jitsu certamente teria desaparecido ou se convertido completamente no Judô Olímpico atual se não fosse o encontro de Conde Koma com um jovem de 15 anos: Carlos Gracie.
A Europa conservou traços de mestres japoneses de Jiu-Jitsu e Judô antigo que passaram e se estabeleceram por lá entre o final do século 19 até a metade do século 20, mas com enfoques mais direcionados à golpes traumáticos, quedas e a programas de defesa-pessoal desassociados de lutas reais, com pouco trabalho de chão. Por essa razão, diz-se que o Jiu-Jitsu europeu possui socos e chutes, no entanto é um sistema de combate bem menos efetivo que o brasileiro, que herdou a experiência em combates reais de Maeda.
Carlos Gracie nasceu em 14 de setembro de 1902, veio de família escocesa, radicada no Brasil. Seus ascendentes imigrantes conseguiram fazer um bom dinheiro e nome no Brasil, no entanto seu pai, Gastão Gracie, era um pouco mais descuidado com finanças, sendo definido como alguém instável em todos os aspectos.
Carlos Gracie foi um menino traquino, que teve um bom desenvolvimento durante a infância e início adolescência, realizando travessuras como jogar pedras em vidraças e fugir de jacarés dentro de rios. O Gracie percebera que o jacaré só enxergava em linha reta, por essa razão, saía da linha de ataque do animal, indo para a lateral durante a investida.
Em 1917, ainda adolescente, Carlos assistiu uma apresentação pública de Conde Koma (que era chamado de “O homem das mil lutas”) em Belém e ficou impressionado, sendo levado por seu pai para treinar na residência do mestre japonês, onde passou a ter aulas regulares. Algumas fontes dizem que Conde Koma aceitou treinar Carlos por gratidão ao seu pai, que era político e teria ajudado a facilitar a imigração de japoneses no Brasil.
Carlos teria estudado com Maeda por cerca de três anos, entre viagens freqüentes do mestre, ainda assim, aprendendo muito de seu método e filosofia. Basicamente o Gracie teria sido introduzido à um programa completo de defesa pessoal, estratégias e golpes para combates sem regras, muito trabalho de chão e algumas quedas.
As razões para isso eram que, na época no Japão, considerava-se mais fácil ensinar iniciantes com velocidade através de técnicas de solo, que rapidamente colocavam um iniciante em condições de enfrentar efetivamente um leigo em um combate real, e mesmo competir diretamente contra alguém mais avançado do que ensinando quedas. Em muitos torneios daquela época, onde não existiam pontuações, havia combates entre equipes e frequentemente os mestres treinavam seus discípulos menos avançados em estratégias de chão, para que, mesmo que não conseguissem fazer seus oponentes desistirem através de um estrangulamento ou chave, ao menos complicassem a vida dos mais graduados buscando um empate. Maeda seguia esta tradição.
Em 1922 os Gracie se mudaram de Belém. Carlos havia sido proibido por seu mestre de ensinar Jiu-Jitsu, no entanto, se vendo em más condições financeiras, após ser expulso de casa por seu pai, tentou trabalhar com Jiu-Jitsu no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e São Paulo. Carlos conseguiu finalmente um emprego no Banco do Brasil no Rio de Janeiro, e, nessa ocasião, dava aulas para seus colegas de banco.
A flexibilidade de Carlos
Carlos teve a vida transformada pelo Jiu-Jitsu, era estudante de filosofia oriental, esoterismo, treinamento e alimentação, sendo um dos pioneiros no estudo da dieta para aumento da performance atlética (Dieta Gracie), baseando seus estudos no trabalho de vários médicos e pesquisadores, incluindo o argentino Juan Esteve Dulin. Carlos também fez boxe na adolescência.
Como cursou pouco tempo regular de Jiu-Jitsu, embora tenha tido uma boa base, grande parte do Jiu-Jitsu do Gracie se desenvolveu nas pesquisas e aulas com seus alunos.
Em 1925 Carlos Gracie fundou a primeira “Academia Gracie de Jiu-Jitsu” no Rio, Rua Marquês de Abrantes, 106.
Seus irmãos Oswaldo e Gastão Jr. eram seus assistentes no empreendimento, atuando como instrutores (eram ensinados por Carlos). Nessa época seus dois irmãos menores, Hélio (com 12 anos) e George (com 14 anos) passaram à sua tutela.
O estilo de lutar de Carlos era peculiar, ele era especialista na chave de braço (arm-lock/juji-gatame), baseando todo o seu jogo pessoal na busca dessa finalização. Costumava avisar seus alunos que os pegaria em um arm-lock em determinado braço, para dificultar, já que ficariam atentos, e dessa maneira, desenvolveu muitas formas diferentes de chegar à posição e quebrar as defesas do adversário. Isso ajudou a construir um dos princípios fundamentais do Jiu-Jitsu Brasileiro: O de induzir o adversário ao erro. Como era um homem pequeno e leve, assim como os outros de sua família, essas adaptações eram necessárias para que pudessem vencer adversários mais fortes.
Carlos, visando promover o Jiu-Jitsu no Brasil, exatamente como seu mestre, desafiava quem quisesse por à prova sua arte. Inicialmente começou desafiando homens fortes, posteriormente capoeirista, lutadores de luta-livre, e em seguida qualquer um que tivesse interesse em se testar.
Carlos anteviu um projeto familiar de desenvolvimento do Jiu-Jitsu, no qual imaginava unir e projetar o nome de sua família por todo país através da arte. Isso daria a todos uma filosofia pela qual se guiar, e uma profissão garantida, além de elevar o nível técnico do grupo acima dos demais. Assim como na sociedade japonesa antiga, onde os estilos de Jiu-Jitsu eram desenvolvidos em clãs, Carlos imaginava que o mesmo poderia ser feito em seus dias.
Por essa razão lançava os chamados “Desafios Gracie” nos jornais, visando atrair mídia, e mesmo com anúncios do tipo “Se você quer ter sua face esmurrada e arrebentada, seu traseiro chutado e seus braços quebrados, entre em contato com Carlos Gracie no endereço..”, para promover suas aulas.
Carlos Gracie dando um armlock em Flávio Behring
Como naquele tempo o Jiu-Jitsu não era conhecido no Brasil como o Boxe e a Capoeira, desafiar homens dessas modalidades era uma necessidade para demonstrar a eficácia da arte. Carlos venceu lutas célebres, entre as mais famosas o campeão de luta-livre Rufino e o capoeirista Samuel, este último inclusive apertou seus testículos durante a luta, desesperado com a possibilidade de derrota.
No entanto a mais importante luta de Carlos foi contra o mestre japonês de Jiu-Jitsu Geo Omori, no desafio Gracie vs Japão em 1924. Ao final do terceiro round, Carlos encaixou um arm-lock justíssimo em Omori, que resistiu e não bateu em sinal de desistência, tendo o braço quebrado.
Omori continuou a lutar mesmo com o braço inutilizado, aplicando ainda uma queda em Carlos antes do final do combate.
Esse fato ajudou também muito no desenvolvimento do Jiu-Jitsu Gracie, já que Carlos a partir desse dia iniciou treinamentos na academia, que se tornaram constantes, onde os alunos deveriam lutar com apenas um dos braços, e mesmo, sem nenhum dos dois, criando um estilo peculiar de lutar que valorizava o movimento e pernas, a guarda e determinados tipos de controle (pegada) com uma única mão. Outro resquício desse combate foi a preferência de Hélio Gracie (irmão de Carlos) por estrangulamentos, já que nesse caso, não havia possibilidade do adversário continuar em combate em função de sua determinação, pois perderia rapidamente a consciência por falta de oxigenação cerebral. Os combates contra outras artes marciais, inclusive, ajudaram a colocar outras táticas no arsenal dos Gracie, como chutes de calcanhar nos rins e a levantada-técnica, vindos da capoeira da época.
Os irmãos de Carlos participavam de desafios, incluindo lutas de Jiu-Jitsu e vale-tudo, sendo George o maior representante da academia nos ringues.
Gradualmente o Jiu-Jitsu Gracie ganhou repercussão nacional, tornando os membros da família e alunos da academia, competindo com adversários muito mais pesados, famosos no Brasil, em uma época em que o futebol ainda engatinhava no país. Carlos era o mentor desta revolução.
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