Bate-papo com Marcelo Garcia - by BJJ Forum

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Entrevista cedida por Marcelo Garcia à Matt Arroyo em 2011 quando Marcelo ainda competia no alto nível. Uma entrevista sem edições onde Marcelo Garcia fala sobre Fabio Gurgel, técnicas favoritas, mindset para lutas, entre outras coisas. Simplesmente imperdível para qualquer amante da arte suave.
A entrevista está em inglês, mas para quem ainda não está com o inglês afiado, o BJJForum fez uma transcrição traduzida completa logo abaixo para os nossos leitores. Confira!




Todos dizem que você tem cara de bebê, ninguém sabe a sua idade. Quantos anos você tem, Marcelo?
(Risos) Eu não estava sabendo dessa de cara de bebê, mas eu estou ficando velho, haha. Em janeiro de 2012 eu vou fazer 30 anos. Isso é muita coisa! Eu lembro de quando tinha 17 anos e não tinha nenhuma dor, era um tempo muito bom, sabe?
Em que ano você começou a treinar, que idade você tinha?
Eu comecei quando tinha 12 anos, cara, devia ser em 1994. Aquele ano foi dividido entre Judô e Jiu-Jitsu. Naquela época Judô e Jiu-Jitsu era meio que a mesma coisa pra mim.
Quantos anos você levou para tornar-se faixa preta?
Recebi minha faixa preta em 2002, então de 1994 à 2002, 8 anos.
Você recebeu sua faixa preta em 2002, você não era famoso até o ADCC de 2003. O que mudou entre 2002 e 2003 que permitiu você se tornar de um desconhecido para alguém cujo nome estava na boca do povo?
Eu acredito que foi a exposição que o ADCC me trouxe, como ele é realizado apenas a cada 2 anos todo mundo considera ele a maior competição sem kimono do mundo. O ADCC é um torneio meio que tradicional, a exposição que ele proporciona é ótima pois muitos dos vencedores tornaram-se estrelas do MMA. Mas não mudou muita coisa, meu treino era o mesmo.
Então antes de 2003 você já vencia campeonatos, mas as pessoas não sabiam quem você era?
Sim, talvez eu estivesse ganhando até mesmo mais campeonatos, mas só competições menores. Eu era bem mais novo e estava sempre competindo. Quando eu tinha 17 anos, tive uma das minhas melhores fases. Eu estava competindo quase todo final de semana. Uma vez eu competi 6 finais de semana seguidos, foi o máximo que eu fiz até hoje! Pra mim era muito bom.
Quando você começou a treinar com Fábio Gurgel? Que faixa você era?
Eu comecei a treinar com o Fábio no final de 2001. Eu já era faixa marrom. Eu já tinha treinado com ele algumas vezes porque minha esposa sempre treinou com ele, então tive a oportunidade de visitar sua academia. Naquela época eu já era da Alliance e a conexão ficou mais fácil pois o Fábio era um dos principais técnicos da equipe.
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Marcelo Garcia e Fábio Gurgel
Fábio treinou muitos atletas de alto nível, o que faz dele um técnico tão bom?
Definitivamente o que faz a diferença é que ele está nisso há muito tempo, uma experiência inacreditável. Eu lembro quando eu entrei em 2001 ela já era faixa preta há 10 anos! Então a experiência que eu tinha em toda minha carreira, ele tinha só na faixa preta. Eu sempre tentei fazer as coisas da mesma forma que ele. Ele da aulas todos os dias, mas ao mesmo tempo está sempre treinando e rolando. As vezes ele está explicando alguma técnica para alguém mas a maioria do tempo ele está treinando. Eu acredito que isso ajude seus alunos a ver o que eles precisam fazer, então se você está disposto a treinar com seus alunos, você vai ter bons alunos.
Tem muitos caras incríveis por aí, mas por que você é tão bom? O que faz o seu jogo tão eficiente?
Eu não sei quão bom eu sou, eu não gosto de pensar dessa forma. Uma coisa que eu acredito e tenho orgulho de dizer é: “Eu acho que amo o Jiu Jitsu mais que qualquer pessoa”. Eu tenho certeza que estive no tatame treinando mais que muita gente. Eu acredito que isso me ajudou muito com o passar dos anos. Acho que é um dos segredos, você deve gostar do que está fazendo, se você não gosta você não vai muito longe.
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O que você acha mais importante? Rolar, treinar posição ou os dois?
Se eu tiver que escolher um só, definitivamente eu diria rolar, mas não adianta você rolar e não saber o que está fazendo. Você tem que ter uma estratégia na sua cabeça que vá funcionar. É como você acordar e ter uma ideia de técnica nova ou então viu algum vídeo na internet, você tem que ir para a academia treinar essa posição especficamente. Talvez seu professor te mostre uma técnica nova, você vai precisar treinar ela antes e então seu corpo vai estar familiarizado com os movimentos.
Qual o tempo mínimo por dia ou por aula que você deve rolar para ficar bom rápido?
Não gosto de enfatizar números. Eu diria que o máximo que você puder então você vai estar fazendo mais que os outros. Se fosse dizer em números eu poderia dizer que pelo menos duas aulas por dia e se você quiser colocar um tempo eu acho que uma hora de rola por cada aula está bom.
Você venceu o mundial em todas as faixas, da azul à preta. Que conselho você daria para um faixa azul que almeja ser campeão mundial em todas as faixas?
As pessoas precisam entender que não é fácil, tem muita gente tentando fazer a mesma coisa, mas você tem que fazer mais do que essas pessoas. Você tem que estar no tatame mais que as outras pessoas, e o mais importante é se divertir no tatame. Um ano da minha vida eu treinei quatro vezes por dia, eu não podia fazer mais nada além de treinar aquele ano. Você nunca deve estar satisfeito com o quanto você treinou, na minha cabeça eu sempre pensei que poderia ter treinado mais!
Nunca pense que você está bom o bastante. Se você vencer o mundial na faixa azul, não pense que você é o melhor, você deve sentir como se devesse treinar mais. É assim que você vai progredir. Eu garanto que se você se esforçar ao máximo você vai encontrar oportunidades de treinar mais. Você tem que tentar e aproveitar tudo isso, senão será algo penoso.
Marcelo_garcia
Parece que em 2003 e 2005 você usou principalmente Guarda-X e, pegando as costas você aplicava o mata leão, mas em 2007 você começou a usar guilhotinhas e estrangulamentos do norte/sul. Isso era algo que você estava trabalhando e então ficou muito bom em fazer ou é algo que você apenas decidiu trazer para seu jogo por que era algo novo para você?
As vezes você deve tentar surpreender seu adversário, nem precisa ser o adversário, pode ser as pessoas que você treina todos os dias. Você tem que fazer algo novo, se você não procurar por algo novo você nunca vai melhorar seu jogo.
Toda vez que vocês me veem fazendo algo novo em competições, eu já venho usando esta técnica por cerca de cinco anos nos treinos. Eu lembro da primeira vez que eu fiz o estrangulamento norte/sul em uma competição, foi em uma luta casada. A técnica não estava perfeita, dava pra se dizer que tinha algo de neck crank nela, mas o cara bateu. Eu já estava treinando aquela técnica dois anos naquela época, após mais dois anos no ADCC eu estava muito mais confortável com os movimentos.
Não fique satisfeito com tudo que você está fazendo, sempre tente aprender algo novo e faça o máximo para se aperfeiçoar em todas as situações onde seu adversário tentar defender. Você deve tentar e sempre melhorar.
Então você está dizendo que, mesmo se você tem um jogo construído desde a faixa azul até a faixa preta e você encontra uma técnica nova que acha que vai funcionar, deve adicionar ao seu jogo?
Sim. Não fique satisfeito com as técnicas que você sabe, vamos dizer que são dez movimentos. Mesmo que você os aperfeiçoe mais até chegar à perfeição, e se eles não funcionarem? Você deve ter pelo menos uma alternativa para cada um deles.
Atualmente tem muita gente jogando em deep-half (meia guarda profunda) ou fazendo guarda de ponta cabeça mas você parecer preferir pegar as costas  para guarda borboleta. Por que você não joga mais de meia guarda?
Eu tenho algo com a deep-half. Tinha uma época que eu gostava muito de usá-la, era uma das minhas posições favoritas. Eu lembro que eu perdi uma luta muito importante na faixa marrom por que eu fiquei preso na deep-half por 8 minutos. Eu já havia vencido o mesmo adversário na final do mundial na faixa roxa, mas desta vez ele me segurou na meia guarda e venceu por uma vantagem. A partir de então comecei a trabalhar mais de guarda borboleta. Eu acho que se você chama para a deep-half você deve continuar se movimentando, talvez partir para a guarda x, você não pode ficar descansando ali só por que seu adversário não consegue uma base sólida pra te amassar.
Pode falar sobre sua opinião a respeito de “não jogar no jogo do seu adversário”?
Eu acredito que você deve ter o seu jogo, os movimentos que você pratica todos os dias. Você construiu um jogo com técnicas que se conectam e você deve tentar impôr este jogo. Então, se você conhece alguém muito bom em alguma coisa, não jogue seu jogo, você tem que acreditar em seu próprio jogo. Talvez ele esteja jogando desta forma há muito tempo e você não terá chances de derrotá-lo em seu jogo. Mas se ele confia em seu jogo e você no seu, e eles são iguais, você deve acreditar ainda mais no seu! Você tem que acreditar que treinou melhor que ele.
Marcelo Garcia
O que você acredita que seu jogo muda do kimono para sem kimono? Eu reparei que você não faz guilhotinhas de kimono e também não faz muitos estrangulamentos cruzados.
Não, eu não gosto de tentar guilhotina com kimono porque o percentual de acerto é muito baixo, a lapela atrapalha muito o ajuste. Na minha cabeça eu tento fazer as mesmas coisas no dois. Existem algumas exceções, como obviamente eu não posso fazer pegadas sem kimono, então eu apenas adapto essas pegadas e faço o controle de pulso e cotovelo. Eu aconselho o pessoal a tentar reparar a diferença e adaptar seu jogo para as duas modalidades, eu ainda acredito que não exista muita diferença entre os dois.
Parece que quando você está lutando você nunca fica cansado! Como você treina seu condicionamento físico para competição?
Eu só me divirto estando no tatame! Eu tento dar o máximo possível quando eu treino, eu tento ficar o máximo de tempo possível no tatame. Isso definitivamente ajuda no meu condicionamento físico para o Jiu-Jitsu.
Sabe, as vezes você pode estar cansado mas você não pode deixar seu adversário perceber que você está. No treino tudo bem, mas não na competição. Eu fico cansado sim mas eu preciso acreditar que meu adversário está ainda mais cansado, mostrar que aparentemente não está cansado te da uma leve vantagem, Lembre-se, se você pressionar 100%, seu adversário precisa se defender 100%.
Uma vez em uma luta casada sem kimono eu estava levando sendo pressionado e percebi que meu adversário estava respirando pesado. Eu estava pressionando, mas quando vi que ele estava ficando cansado, pressionei ainda mais e consegui algo. Antes daquele momento eu não estava conseguindo achar nada mas depois segui avançando e eventualmente finalizei.
Marcelo ADCC
Então você não complementa seu Jiu-Jitsu com musculação?
Eu tentei uma vez durante 8 meses.
Exigiu muito de mim e eu nunca me diverti com aquilo em nenhum momento! Eu estava sempre muito mais feliz quando estava apenas treinando Jiu-Jitsu. Sempre senti que o treinamento que fazia no tatame era muito mais importante.
Mesmo agora tudo o que eu faço é treinar no tatame. Acho que faz uns quatro anos desde a última vez que saí para correr. Eu prefiro dedicar toda minha energia e suor nos tatames. Para algumas pessoas que não podem ficar tanto tempo no tatame, tenho certeza que este treino pode ajudar. Se você não tem a oportunidade de ficar exausto treinando Jiu-Jitsu talvez você precise mesmo de algo mais.

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