Entrevista com a sueca campeão mundial Janni Larsson

segunda-feira, 9 de março de 2015


By Bruno Fugazza
www.bjjforum.com.br


Janni-Larsson
Janni Larsson foi a segunda pessoa da Europa (incluindo homens e mulheres) a vencer um Mundial de Jiu Jitsu (a primeira foi a francesa Laurence Cousin em 2007). O BJJF conversou com a sueca, oriunda do mesmo tatame que fabricou campeões como Alexander Trans, Ida Hansson e Shanti Abelha, sobre seu início no Jiu Jitsu Japonês e a transição para o Jiu Jitsu Brasileiro, sobre como ela concilia os treinos e competições com a Faculdade de Medicina, sobre competir com homens (Ronda Rousey curtiu isso), sobre os meses que passou morando no Brasil e muito mais.
Confira o bate papo abaixo. E se quiser ver Janni em ação, colocamos o vídeo de sua final no Mundial IBJJF 2014 ao fim da matéria!

Olá Janni. Obrigado por tirar um tempo para conversar com o BJJ Forum! Primeiro de tudo, se apresente para o pessoal que não te conhece ainda!
Meu nome é Janni Larsson. Tenho 27 anos, sou estudante de medicina e moro em Copenhague, Dinamarca. Eu sou sueca, mas me mudei para a Dinamarca há cerca de cinco anos, depois de ser aceita na Universidade. Pode parecer uma grande mudança, já que é outro pais e tudo mais, mas os idiomas são muito parecidos, e as distâncias são pequenas na Europa. Eu vivo a apenas 3:30Hrs da minha cidade natal Jönköping, na Suécia.
Eu sou aluna do professor Shimon Mochizuki na academia Arte Suave, filial da Checkmat em Copenhage. Em 2012 eu comecei a competir internacionalmente, e  tenho alguns títulos nas faixas coloridas. Eu recebi a minha faixa preta cerca de 18 meses atrás, e desde então eu ganhei o Mundial e o Europeu, na categoria dos médios. Eu também fui campeã do mundial profissional de Abu-Dhabi na categoria dos médios, e segunda colocada na categoria absoluto.
Como você começou a treinar Jiu Jitsu?
Eu comecei nas artes marciais em 2005 na equipe JJK Samurai em Jönköping Suécia. Eu pratiquei Ju-Jitsu por cerca de dois anos, antes de fazer uma mudança gradual para o Jiu Jitsu Brasileiro. Também já pratiquei um pouco de Judô, e treinei muito Kickboxing. Na época, eu tinha certeza que nunca treinaria uma arte marcial tempo suficiente para ficar boa e ganhar uma faixa-preta. Eu ainda tenho períodos onde experimento novos esportes, porque eu amo como funcionam essas curvas de aprendizado.
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Você começou no Jiu Jitsu Japonês e depois acabou trocando para o Brasileiro. E você também competiu em torneios de Newaza no Judô. Para você, quais as principais semelhanças e diferenças.
As regras do Jiu Jitsu Brasileiro e da Federação Internacional de Ju-Jitsu são bem parecidas. As maiores diferenças são que Newaza dá dois pontos para uma inversão, um ponto para controle lateral, e as punições são dadas no segundo aviso, em vez do terceiro. Eles não tem realmente uma definição de guarda nas regras do Newaza, então algumas situações causam muita confusão. Alguns dos juízes da JJFI não tem nenhuma experiência de luta, o que se percebe claramente ao assistir algumas lutas. Por exemplo, eu já vi juízes darem pontos de Inversão quando um lutador consegue a montada pelas costas, e o atleta que está por baixo na montada e virado de frente para o tatame vira de barriga pra cima. Eu tenho ouvido que eles estão trabalhando em trazer juízes com experiência em Jiu Jitsu Brasileiro, o que deve ser muito bom para quem compete no Newaza.
O ju-jitsu que eu comecei em 2005, JJIF – Ju Jitsu International Federation, é muito diferente do Jiu Jitsu Brasileiro. Na JJIF há lutas com pontuação por “socos e chutes”, “quedas e imobilizações” ou “finalizações no solo”. Você não vence com a finalização, pois eles exigem uma técnica perfeita nos três campos. No solo, a maioria dos lutadores da JJIF tentam chegar na posição de controle lateral (100kg) ou montar rapidamente, pois eles te dão pouco tempo no solo.
E antes do Jiu Jitsu, você costumava competir pela Seleção Sueca de Kickboxing, certo?
Bem, eu não estava realmente na Seleção Sueca, já que eu nunca fui a nenhuma grande competição internacional com a equipe. No entanto, eu lutei pela Seleção em uma “competição entre países” contra a Dinamarca. Então eu lutei camisa de lycra azul e amarela, e uma calça estilo anos 80. Eu estava tão orgulhosa de vestir aquele uniforme e representar a Suécia. Hoje parte de mim espera que eles atualizem esse uniforme, e a outra parte sente que não estou em uma posição de julgar, já que eu treino e compito em algo que as pessoas de fora poderiam descrever como um “pijama”…
Então, parece que você é uma lutadora de Jiu Jitsu de nível mundial, com uma boa base em pé. Será que uma luta de MMA está em seus planos para o futuro? Talvez eu esteja falando com a futura Alexander Gustafsson do MMA feminino?
Eu não tenho nenhum plano para o MMA no futuro. A minha experiência na trocação está muito enferrujada e apesar de eu ter experiência tanto na trocação e no grappling, um novo plano de luta teria que ser criado quando se mistura os dois. Já é difícil o suficiente quando se soca e chuta alguém, que não está tentando te derrubar. Além disso, eu me sinto confiante quando puxo pra guarda e faço a guarda-aranha. Não acho que minha zona de conforto no BJJ conseguiria ser bem aplicada no MMA. Eu já pensei em competir quando era mais nova, mas meus pais não eram muito a favor da ideia, e eu respeitei. Como resultado, eu me foquei no Jiu-Jitsu.
O que é mais difícil? Vencer o mundial da IBJJF na faixa-preta ou equilibrar o seu tempo entre a faculdade de Medicina e o Jiu-Jitsu?
Vencer na faixa-preta só é possível para mim se eu conseguir equilibrar os dois. Desse jeito, a minha vitória em 2014 mostra que eu consegui equilibrar meu tempo naquele semestre. Competir em si não é difícil, se você entrar no tatame sabendo que fez tudo o possível pra estar preparado.
Tenho percebido que está ficando mais difícil de equilibrar o tempo entre as duas atividades. No começo da faculdade de Medicina eu só estudava e fazia provas. Agora tenho que fazer horas práticas correspondentes a um emprego em tempo integral no hospital, estudar e fazer provas. Durante os semestres com prática clínica os estudantes são colocados em diferentes hospitais, às vezes distantes até quatro horas de Copenhague. Se eu tivesse sido colocada num hospital a quatro horas da minha academia, minha carreira no Jiu-Jitsu estaria acabada. Mas a Universidade de Copenhague tem sido muito prestativa e compreensiva. Eu tive uma dispensa, então não preciso viajar mais de uma hora para chegar ao hospital.
Falando em coisas difíceis… fale pra nós sobre aquela vez em que você acabou competindo contra homens na Alemanha!
Foi uma competição de Newaza em 2013. Os organizadores pensaram que eu era um homem, então eles me inscreveram na categoria masculina. Em seguida, eles chamaram a única garota do meu peso e disseram que ela não tinha uma luta, então ela sumiu. Na competição conseguimos convencer os organizadores a me deixar competir contra os homens. Os rapazes da categoria não tiveram problemas em competir contra mim, e eu acabei vencendo três das quatro lutas.
É estranho como o mundo funciona. Era uma competição pequena na Alemanha, que eu nem sequer consegui ganhar, e ainda é a competição que a mídia mais fala sobre, e ainda aparece em muitos tópicos de discussões na internet.
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Conte mais sobre sua academia, seus parceiros de treino e o que faz vocês serem tão bem sucedidos
Eu treino com o professor Shimon Mochizuki na academia Arte Suave em Copenhague. É uma das melhores academias da Escandinávia. Outros lutadores da minha academia que vocês já devem ter ouvido falar são Alexander Trans, Ida Hansson e Shanti Abelha. Temos também alguns competidores novos que se deve ficar de olho. Joshua Manczak, por exemplo, ficou com o bronze no Europeu e vai estar no Abu Dhabi World Pro.
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Eu acho que meu treinador Shimon Mochizuki é a principal razão da academia ser bem sucedida. Ele é um ótimo instrutor e ele colocou muito do seu tempo e esforço nisso. A academia tem crescido muito nos últimos anos. Quando eu comecei a treinar na Arte Suave, em 2010, tinha um grande tatame e só um chuveiro para todo o pessoal. O vestiário das garotas era um corredor com duas portas. Os novatos não tinham ideia que ali era o vestiário feminino, então toda vez que trancávamos, eles batiam na porta mas não podiam entrar, e tinham que esperar até que abríssemos para poderem passar. Agora temos três grandes áreas de tatame, muitos chuveiros e vestiários grandes. É fantástico!
A academia é muito competitiv, o que me mantém afiada. Eu sou preguiçosa por natureza, então se não for empurrada e pressionada, eu não treino duro. Muitas pessoas na minha academia são muito dedicadas ao Jiu Jitsu e treinam o máximo que podem. Essa mentalidade contagia, então nossos atletas motivados acabam motivando o resto do pessoal.
Durante 2012 e 2013 você passou alguns meses vivendo, treinando e competindo no Brasil. Como foi essa experiência? Isso teve um impacto no nível do seu Jiu-Jitsu? E como foi ver em uma cultura tão diferente do que você está acostumada?
Meus meses no Brasil tiveram um enorme impacto no meu Jiu-Jitsu. Eu morava em Santos e treinava com o professor Rodrigo Cavaca na academia CheckMat. Foi durante esse tempo que aprendi a guarda X e chaves de pé. Eu tive a chance de treinar muito com a Michelle Nicolini, que é o meu maior modelo feminino no Jiu-Jitsu. Mesmo depois de passar tanto tempo com ela, eu ainda fico um pouco fascinada quando eu a vejo!
Os parceiro de treino que tive no Brasil eram menores do que estou acostumada e tinham um Jiu-Jitsu muito “solto”, o que tornou mais fácil aprender as técnicas. Às vezes eu sinto falta deles um pouco, quando estou escolhendo meus parceiros de treinos que são do tamanho de Vikings na Dinamarca.
O Brasil é muito diferente da Escandinávia. Temos educação e Assistência Médica gratuitas, e existe um foco grande na igualdade entre as diferentes classes sociais. O contraste entre a sociedade escandinava e brasileira é grande quando se olha para a educação e assistência médica. Eu tive uma reação muito forte na primeira vez que vi uma favela. Eu ainda tenho muita dificuldade para entender as desigualdades sociais.
Outro ponto é que na Suécia, nós temos muito foco na igualdade entre homens e mulheres e, há alguns anos, palavras de gênero neutro foram adicionadas ao idioma. Temos muitos pais que ficam de licença paternidade. Até mesmo os médicos homens ficam em casa com as crianças. Na Suécia os papéis de gêneros são bastante misturados. Isso me fez meio que ser pega de surpresa quando eu fui para o Brasil, onde os papéis de gênero são claramente definidos. Eu não entendi especialmente no inicio, como agir, a fim de seguir as normas do Brasil. Foi provavelmente a diferença cultural mais difícil que eu tive que lidar quando estava no Brasil.
O que mais me fascina no Brasil é a forma como é um pais vivo. Me impressiona que tantas pessoas consigam dançar e parece que as pessoas são mais apaixonadas que as da Escandinávia. Eu adoro as praias, o sol e o açaí, e às vezes eu só quero pausar minha vida e voltar pro Brasil.
A categoria feminina do absoluto tem sido um pouco “previsível”, com a Gabi Garcia ganhando todos os campeonatos disputados. Você acha que é possível que as concorrentes atuais consigam vencê-lá? Como veria isso acontecendo? Qual seria a estratégia mais inteligente?
Eu acho que a Mackenzie Dern mostrou que é possível vencer a Gabi, no Europeu desse ano, então eu diria que pegar as costas, seria um bom plano. Eu estou muito impressionada com ambas, Mackenzie Dern e Beatriz Mesquita por lutarem tão bem contra a Gabi, eu ainda estou tentando sobreviver mais do que três minutos com ela.
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Obrigado pela entrevista! Algum comentário final ou agradecimento?
Se você estiver lendo essa entrevista e alguma vez vier a Copenhague, você deve vir na academia Arte Suave para um treino. E se precisar de um kimono, você deve ir até o meu patrocinador MOKAHARDWARE.com.

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