História do Jiu Jitsu – parte 3 – Declínio do Jiu Jitsu antigo

domingo, 25 de janeiro de 2015

By Tony Ferraz

O declínio do antigo Jiu-Jitsu

Yata no Kagami, o espelho mágico capaz de revelar o que há na alma do praticante
Yata no Kagami, o espelho mágico capaz de revelar o que há na alma do praticante
Se por um lado, as ações de Kano tinham como objetivo preservar o Jiu-Jitsu, por outro lado também faziam oposição a ele através de sua filosofia. O símbolo do Judô Kodokan, por exemplo, é um círculo vermelho (que representa o sol) cercado pela Yata No Kagami, uma flor de oito lados que representa um espelho mágico capaz de revelar o que há na alma de quem olha para ele. É parte de uma antiga lenda japonesa, onde o imperador recebera dos deuses três presentes poderosos, incluindo Yata No Kagami, em sua missão de unificar o Japão.
Esse símbolo faz oposição aos tradicionais símbolos de escolas de Jiu-Jitsu, que usavam uma flor de cinco lados, Sakura No Hana (flor de cerejeira). Como a flor de cerejeira floresce apenas uma vez por ano e dura apenas alguns dias, representava a brevidade da vida do Samurai e a necessidade da intensidade de sua vida e de seus atos como preparação para a morte.
Nesse caso, o símbolo era uma maneira de ensinar que o objetivo agora não era mais a preparação para a morte, mas se aperfeiçoar revelando o que estava guardado e escondido em seu espírito através da pratica e do treino.
Kano também modificou os tradicionais uniformes de treinamento (Kimono, como é chamado tradicionalmente no Brasil quer dizer “roupa”. No Japão se utiliza o termo “Gui”, que quer dizer “uniforme”) aumentando suas mangas e modificando suas calças para facilitar as pegadas das quedas. A cor do uniforme não era mais negra, como na maioria das escolas, que visava esconder as marcas de sangue do corpo do Samurai, mas branca, representando a pureza de espírito e a sinceridade. Nada é mais poderoso que a verdade.
A razão de todas essas modificações de Kano, em sua ótica, se encontram em suas próprias palavras:
Eu comentei que no passado o número de escolas de Jiu-Jitsu no japão chegava a cem, e que esses estilos de Jiu-Jitsu eram praticados em todo o país. Após a restauração Meiji, elas declinaram tão rapidamente que em certo ponto parece que o Jiu-Jitsu ia desaparecer completamente. Mas por volta de 1877, o Jiu-Jitsu começou a passar por uma recuperação gradual e a ser praticado pela Japão todo, até que ganhou a popularidade que vemos hoje.
O gekoken (uma forma de esgrima) seguiu um caminho semelhante, mas, diferente do Judô, os praticantes de Gekiken de hoje seguem estritamente as regras antigas. Já o Judô, por outro lado, voltou a se desenvolver em 1882, a partir de uma linha de estudo e, embora tenha mantido alguns de seus elementos, é bastante diferente do antigo Jiu-Jitsu.
A politica educacional do passado era não ensinar a teoria no início, para que depois os alunos praticassem as aplicações. Em vez disso, os instrutores ensinavam aos alunos as técnicas que haviam aprendido durante seu próprio aprendizado e esses pupilos passavam essas técnicas a seus alunos. Portanto, o princípio básico que serviria como objetivo principal do ensino não era claro.
Vou dar um exemplo com base no que aprendi a partir dos ensinamentos de meu mestre. Uma vez meu mestre me arremessou de uma maneira que hoje chamamos de sumi-gaeshi (arremesso em diagonal – raspagem de gancho). Eu não sabia como ele tinha feito aquilo, então lhe perguntei. Ele não disse nada e continuou a usar a técnica em mim, repetidamente. Eu implorei para que ele me explicasse como fazia aquilo e ele usou a técnica em mim novamente. Dessa vez, pedi a ele que explicasse em detalhes, como puxar os braços, como posicionar as pernas, como abaixar o quadril, sem usar o waza (técnica) em mim. Então o mestre respondeu: “Mesmo que você pergunte algo assim agora, a resposta não será útil para você. Mas, se repetir o waza várias vezes e praticar, você aos poucos compreenderá”. É claro que como instrutor, às vezes ele dava explicações ou respondia às perguntas, mas geralmente havia poucas palestras baseadas nos princípios ou análises seguidas de explicações.
No Kodokan, estudamos e praticamos as técnicas com o propósito de usar a energia mental e física da maneira mais eficiente possível para atingir os objetivos, não importa quais sejam – eis o princípio básico do Judô. Por tanto, as pessoas que passam por treinamento não imitam meramente as ações do mestre nem praticam sem compreender as razões por trás do que estão fazendo; elas estudam os métodos e treinam de acordo com princípios detalhados. Por essa razão, o que antes levava cinco ou seis anos para ser aprendido, agora é atingido em três anos.
Quando estabelecemos a Kodokan, a maioria das pessoas foi para os dojos de antigo Jiu-Jitsu, que estavam voltando a ganhar popularidade, pois não estavam acostumadas com nosso métodos de ensino. Mas essas pessoas perceberam que o método de ensino usado na Kodokan era superior, e acabamos recebendo muitos alunos. Agora, o currículo de certos dojos que apoiavam o Jiu-Jitsu de antigamente passou a ser o mesmo da Kodokan.
A superioridade do Judô Kodokan é resultado das razões que descrevi; ao passar pelo treinamento do Judô Kodokan, o aluno não deve esquecer esses méritos. Nos últimos tempos, como o Judô se tornou mais popular, em alguns casos faltam o método educacional e o espírito fundamental do Judô. Por tanto, minha esperança é que aqueles que estão em treinamento, tanto quanto os instrutores, dêem a devida atenção a essas questões.
Treinamento de Judô Kodokan
Treinamento de Judô Kodokan
Essa potencial superioridade do estilo de Kano incomodava os estilos tradicionais de Jiu-Jitsu que não estavam satisfeitos com seu método.
O acusavam de deturpador, pois além de agregar conhecimento de outras escolas de jiu-jitsu, indiscriminadamente (fato incomum, pois as escolas defendiam e guardavam seus segredos, sempre evitando se associar com outras escolas), Kano também introduziu técnicas e métodos de luta da cultura ocidental, como o Wrestling. Alguns tipos de ataques de pé, e mesmo a queda Kata-Guruma, vieram destas pesquisas.
Os alunos da Kodokan, com fama de invencíveis, eram sistematicamente desafiados. Mas o declínio dos estilos tradicionais de Jiu-Jitsu se deu definitivamente em 11 de junho de 1886, onde a Policia Metropolitana de Tóquio realizou um torneio entre todas as escolas de Jiu-Jitsu, para determinar qual seria o sistema ensinado na polícia. As regras definiam que os combates acabariam apenas por desistência de uma das partes.
Estavam presentes todas as escolas mais respeitadas do país, no entanto, de 15 combates, a Kodokan venceu 12 , empatou uma e perdeu 2. Isso elevou o estilo à um grau inigualável de supremacia e status, mantido em torneios realizados em anos posteriores pela polícia.

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