História do Jiu Jitsu – Parte 2 – pós-Meiji

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015


By Tony Ferraz

O Jiu Jitsu pós-Meiji


Jiujitusukas praticando Kito Ryu Jujutsu

Ao final da era Tokugawa veio a Restauração Meiji (1868), onde o Feudalismo foi abolido do Japão, o poder foi restituído ao imperador e o país passou por um intenso período de modernização econômica e cultural. Nessa época, o Japão foi reaberto ao mundo, e suas tradições que permaneceram fechadas por séculos passaram a sofrer grande influência ocidental. O impacto e o fascínio pela nova cultura ocidental eram tantos, que a própria cultura japonesa passou a ser discriminada e marginalizada, incluindo o Jiu-Jitsu.
Nessa época, os Samurais foram proibidos de portar espadas, e como não havia mais guerras ou um regime militar para sustentar suas atividades, perderam subitamente sua função na sociedade.
Muitos ex-samurais se suicidaram e outros foram obrigados a procurar outras atividades para sobreviver, alguns abriram clínicas especializadas em fraturas (por seu conhecimento em anatomia), alguns clãs iniciaram negócios de venda de remédios , outros ingressaram na carreira de funcionários públicos ou ganhavam a vida fazendo shows de luta e acrobacias em feiras populares.
Fundamentalmente foi uma época muito ruim para os que dedicavam suas vidas às artes marciais.
Após a febre ocidental, na época da Rebelião Satsuma (1877), o governo contratou alguns artistas marciais para auxiliar na luta contra os rebeldes, aumentando gradualmente o interesse em algumas das antigas artes marciais, que passaram a ser populares nas forças policiais e armadas japonesas.
No geral, no entanto, o Jiu-Jitsu nessa época não gozava de boa reputação entre pessoas mais intelectualizadas, por ser considerado algo ultrapassado, ou uma arte de encrenqueiros. O fato dos instrutores ensinarem golpes perigosos e até mesmo mortais às crianças, e o fato de praticantes mais experientes frequentemente machucarem seriamente iniciantes era ruim para sua reputação. As exibições de Jiu-Jitsu como espetáculos circenses criavam também sobre ele uma aura de algo rude e deselegante.
A história do Jiu-Jitsu começou a mudar quando um jovem, fraco e franzino, frequentemente vencido em brigas de escola e humilhado por sua debilidade física decide aprender Jiu-Jitsu.
Jigoro Kano, nascido em 28 de outubro de 1860, teve dificuldades em iniciar o aprendizado pela má reputação que o Jiu-Jitsu gozava, sendo inclusive desaconselhado por ex-praticantes.
No entanto, deu os primeiros passos sendo instruído por Teinosuke Yagi, posteriormente estudou o Jiu-Jitsu Tenshin Shinyo-ryu (1877) com Fukuda Hachinosuke. Após sua morte, Kano herdou seus arquivos técnicos e continuou seus estudos com Iso Masatomo, na mesma escola de Jiu-Jitsu, e após sua morte, aprendeu Kito-Ryu com Likubo Tsunetoshi. Kano treinou com Likugo até 1885, e depois desta época estudou todas as outras escolas.
A Tenshin Shinyo-ryu praticava nague-waza (técnicas de arremesso), mas enfatizava principalmente shime-waza (técnicas de estrangulamento) e kansetsu-waza (técnicas de chaves em articulações) e também osae-komi-waza (técnicas de imobilizações), em comparação nague-waza era pouco estudado. Kito-ryu era originalmente uma forma de combate corpo-a-corpo com armadura, e seus nague-waza (quedas) eram insuperáveis, embora colocassem pouca ênfase nos outros três modelos de técnicas (estrangulamentos, chaves e imobilizações).
Kano manteve os pontos fortes de ambas as escolas e compensou as áreas que haviam lacunas aprendendo com outras escolas e adicionando detalhes criados por ele mesmo. Essa série de pesquisas e adaptações deu origem a um estilo próprio de Jiu-Jitsu, chamado por alguns de “Kano Jiu-Jitsu”, mas cujo seu fundador denominou “Judô Kodokan”.
Kano teve inúmeros motivos para criar um novo estilo de Jiu-Jitsu, e de uma maneira ou de outra, acabou atingindo todos os seus objetivos.
Fundamentalmente Kano era um amante do Jiu-Jitsu, seu estudo na adolescência havia mudado a sua vida, lhe dando mais auto-confiança equilibrando-o física, mental e moralmente. Mesmo que a essência da arte fosse o combate, o treinamento mental e físico sempre estiveram entre suas metas. Naturalmente, o treino para a luta exige que se mova o corpo de diversas maneiras, e pela mesma razão o combate exige inteligência e o uso de vários truques e ardis, por esta razão durante o treinamento de Jiu-Jitsu a mente era inconscientemente trabalhada. Coragem, postura, foco, atenção extrema, e outros fatores muito benéficos para a vida poderiam também ser desenvolvidos,
Mesmo sendo uma herança cultural valiosa como método de treinamento físico, mental e moral, o Jiu-Jitsu não estava livre de falhas. A sociedade Japonesa tinha uma imagem mental do Jiu-Jitsu como algo perigoso, onde haviam técnicas danosas ao corpo como estrangulamentos, rompimento de articulações e que aparentemente não trazia nenhum benefício. Como não havia mais Samurais, e por tanto, combates constantes de vida ou morte, o principal objetivo do Jiu-Jitsu se perdera.
Era preciso preservar o Jiu-Jitsu, mas para isso era necessário lhe dar um novo objetivo dentro da sociedade moderna. Por essa razão, Kano intencionalmente inverteu os valores principais da arte, colocando o aprimoramento físico, mental e moral e como principais e treinamento para o combate como meio para alcançar esses objetivos. E isso mudou tudo.
Para não associar seu método à visão da depreciativa da época sobre a arte, e aos shows realizados em praça pública Kano evitou o nome Jiu-Jitsu. Decidiu chamá-lo de “Ju-dô (Caminho Suave) Kodokan”.
Havia duas razões para isso, a primeira era enfatizar que o foco não era mais a técnica (Jutsu), que agora era secundária, mas sim o caminho (do). A segunda, era que já havia uma escola chamada Judô Chokushin, e por essa razão Kano escolheu adicionar “Kodokan” – Instituto do Caminho da Fraternidade – Ko (fraternidade, Do (caminho), Kan (instituto) – ao nome, mesmo sendo uma denominação longa.
O sistema de sua escola era dividido em três partes: Luta, Treinamento Físico, e Treinamento Mental.
Sobre o treinamento físico, a Kodokan empregava um método no qual o físico era treinando durante a luta, para que os exercícios não fossem monótonos, no entanto acreditava que se não se treinasse também treinamento de luta, como luta, e treinamento físico, como físico, ficaria impossível dominar qualquer uma das técnicas.
Na área de luta, ele empregava um método que dividia o treino em duas partes, uma delas era o método tradicional da maioria das escolas, que consistia no ensino e repetição do Kata (técnica) e a segunda um método aprendido na escola Kito-Ryu, chamado “Randori” (pratica livre).
Inicialmente Kano tentou empregar um método no qual a técnica (kata) era aprendida instintivamente através da pratica livre de luta (Randori), mas segundo ele, isso era como ensinar redação sem usar um livro de gramática, ou ensinar os fundamentos da gramática enquanto se ensina a escrever um ensaio. Quando havia poucas pessoas a serem ensinadas isso não era um problema, mas a medida que o número de praticantes aumentou, se tornou impossível ensinar a técnica ao mesmo tempo em que se lutava. Por essa razão Kano sistematizou uma série de 15 técnicas para arremessos e 10 para combate chamados Kime no kata (formas de defesa pessoal). Posteriormente veio o kata de Yawara, terminado por volta de 1987.
Nesse período, Kano e seus alunos desenvolveram a maior parte das técnicas do Judô Kodokan, através de treinos e pesquisas diárias, além do estudo de métodos de outras escolas. Outros katas foram desenvolvidos nesse período, como Itsutsu no Kata (as cinco formas), os dez katas para Katame no Kata (formas corpo-a-corpo) e os dez katas do goju-no-kata (ou go no kata, formas de força).
Posteriormente com o estabelecimento da “Dai Nihon Butokai” (entidade encarregada de preservar o antigo bujutsu – artes de combate-) em Kioto, outros katas vieram em associação à ela, através de um comitê formado por Kano e mais 19 renomados mestres de outras escolas de Jiu-Jitsu.
Entre os Katas que surgiram dessa maneira estão randori-no-kata, nague-no-kata, ju no kata e também kime-no-kata e katame-no-kata (modificados após algumas objeções às idéias de Kano).
Itsutsu no Kata, ao contrário de todos os Katas de estilos antigos de Jiu-Jitsu, não possuía nenhum movimento de combate, mas apenas movimentações de sentimento estético e posturas com o intuito de desenvolver um corpo saudável e bem proporcionado. A atenção com o desenvolvimento físico da sociedade era grande preocupação de Kano, por essa razão incluiu competições no Judô Kodokan, visando atrair os jovens.

Kano demonstrando um kata de Kito Ryu:



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