NAVEGANDO NO IMPOSSÍVEL: Os primeiros dias na faixa preta por Tony Ferraz

sábado, 13 de dezembro de 2014




Hoje faz dois meses que peguei a faixa-preta. Como todo o bom competidor, eu não gosto de perder, mas, como disse uma vez Jigoro Kano: Se você quer um dia ter a habilidade para um dia vencer é necessário se contentar em perder por algum tempo. Eu não conhecia essa máxima no início do Jiu Jitsu, e como todo bom faixa-branca, tinha grande dificuldade de aceitar a derrota, mesmo em treinos, me expondo a lesões que ficaram comigo por um bom tempo.

Perder foi uma grande preocupação para mim durante muito tempo, eu fui campeão nos dois únicos torneios que competi na faixa branca (Mundial CBJJE e Paulista Aberto) e a primeira vez que eu perdi já era faixa azul, na final do Campeonato Brasileiro CBJJ. Essa derrota me foi muito impactante psicologicamente. Não é fácil perder quando você está acostumado a ganhar, e hoje eu sei, ela contribuiu na minha mente para muitas derrotas que eu tive posteriormente em finais e semi-finais.
Na faixa roxa isso mudou, eu percebi que eu deveria deixar meu ego de lado e me expor a derrotas, principalmente nos treinos, se quisesse evoluir. Deixei de lado o receio de ser finalizado por mais ou menos graduados, e a única coisa que me importava no treino era ser capaz de realizar as posições que eu havia programado comigo mesmo que tentaria aplicar. Isso foi um grande motor de evolução técnica. Meu Jiu-Jitsu mudou, como eu não me preocupava mais se seria finalizado ou não, tinha liberdade de atacar quase 100% dos rolas, aprimorando minhas posições. Inicialmente não foi difícil, porque eu possuía uma boa defesa adquirida nas faixas anteriores que praticamente me garantia que eu conseguiria me defender da finalização se precisasse, mas fazer isso enfrentando pessoas de um nível próximo ao seu, ou melhores, exige um grande desprendimento do ego.

Outra coisa interessante que Jigoro Kano dizia era que existem dois tipos de vitória: a vitória no presente, e a vitória no futuro. Para vencer agora, no presente, o que você precisa fazer é, sendo forte, usar sua força para sobrepujar um oponente. Mas, usando esse método naturalmente você será derrotado ao combater um oponente muito mais forte. Já para poder vencer no futuro, você precisa aprender a evitar habilmente seu oponente, adaptando-se a energia dele e forçando-o a cometer erros para que você consiga aplicar seus golpes. Neste caso, se você deseja ser capaz de vencer no futuro, você precisa se contentar em levar a pior por algum tempo.

Eu segui esse método nas faixas roxa e marrom, lutando cada campeonato querendo vencer, e obtendo mesmo medalhas importantes, como as do mundial IBJJF, mas sempre os encarando principalmente como preparação para o meu sonho: O Mundial de faixa-preta. Não deixar que as derrotas pesassem demais me ajudou a continuar no caminho, vi muitos lutadores muito bons abandonando o Jiu-Jitsu por causa de insucessos em competições.

No final da faixa marrom eu fiz algumas mudanças, e resolvi colocar mais força e energia em alguns rolas para que eu não precisasse fazer meu condicionamento físico separadamente, usando o próprio Jiu Jitsu como método de treinamento corporal. E isso tem me dado bons resultados, tanto em relação ao aproveitamento de tempo, quanto de energia, já que não me desgasto tanto na musculação e, ao mesmo tempo, refino minhas posições.

Ter a mente aberta para perder me permite buscar a vitória com mais afinco e com menos medo, mantendo minha evolução técnica permanente. Quando erro alguma coisa em um torneio, estudo e adapto aquela técnica para que isso não ocorra novamente. Agora que estou enfrentando alguns dos melhores lutadores do mundo na faixa preta isso tem sido de grande importância, pois posso ver como minhas posições se comportam contra atletas de alto nível e como posso melhorá-las.


Após dois campeonatos de preta percebi detalhes interessantes de estratégia, mas minha mais importante descoberta talvez tenha sido na parte mental/psicológica: o fato de saber que qualquer pessoa pode ser vencida. E se qualquer pessoa pode ser vencida, qualquer pessoa pode vencer. Isso tem me dado confiança para transpor da difícil barreira de lutar contra ídolos e lendas do Jiu Jitsu. Sei hoje que não importa quem ele é, de onde ele vem, ou o que ele fez. Se ele pisar naquele azul e tocar na minha mão, ele pode perder. A partir desse momento, da hora mágica em que a luta começa, qualquer coisa é possível. O melhor lutador talvez seja aquele que navega melhor no impossível.



Tony Ferraz
Parceiro e colunista do blog Be More
Polímata, Faixa-Preta, Campeão Brasileiro CBJJ sem kimono 
Medalha de Bronze no Mundial IBJJF. Designer
Escritor e autor do livro "O Artífice"
https://www.facebook.com/tonyferrazOFICIAL?fref=ts

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