Faixa Preta – O que ela representa? Parte 2 – Bushido

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

By Mestre Lawyer
coluna
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Rickson Gracie


Foram duas. Duas vezes.Pela primeira eu bati e apanhei severamente, desde criança. Já crescido, participei do temido exame de faixa-preta. Foi realizado em um ginásio, fechado aos olhos do público. Um clima de verdadeiro medo transpirava de mim e dos outros seis caras. Éramos sete. Éramos conhecidos, amigos, mas estávamos calados, quietos, só respiração e transpiração, sabedores de que nas próximas duas, três horas, diante de Mestres que eram nossos ídolos, iríamos demonstrar nossas capacidades. As demonstrações não seriam problema. O nervosismo persistente residia no fato de sabermos que em determinado ponto do exame, iríamos nos enfrentar. E o pau ia comer de verdade ali dentro. Não tinha pra onde correr. Ninguém ia ver, nem acudir. Íamos nos machucar, lutar um contra o outro, em sessões intermináveis…. Uma palavra na mente: Resista! Resista!Não a recebi naquele dia, só recebemos o resultado do exame: Conseguimos! Os sete conseguiram! Eu me lembro de estar tão machucado que não conseguia raciocinar direito. Fomos para uma churrascaria com os Mestres para comemorar, mas nosso estado era tão deplorável, que nenhum dos sete conseguia comer nada.
Não me lembro da primeira vez que a amarrei, já faz tempo… Mas sei que um dia me vesti para o meu pai, dentro de casa. Ele nunca tinha participado de nada e eu queria que ele me visse, visse a minha conquista!
Ele me olhou de rabo de olho e resmungou:
– Karate, né? Bom mesmo é Jiu-Jitsu!!!
Era o jeito dele de me dar os parabéns, hehehe… Passei um bom tempo tratando de lesões advindas daquele dia e dos meses de preparação rígida para o exame. Meus ombros estavam um lixo. Bom, acho que estão até hoje…
Com a segunda eu não fiz exame. Isso não existia, ou não era necessário. Foram anos, longos anos, a ponto de eu esquecer que isso poderia acontecer. Na minha cabeça era como se fosse uma arte pela arte. Não deveriam nem existir faixas, de tão bonito que a coisa era… Eu me refinei. Eu me tornei um artista! Era isso, agora eu era um artista!
Quando a recebi, era coisa rara, éramos uns poucos em um Rio do passado. Ninguém sabia direito o que era. Eu tinha certeza de uma coisa. Ali, naquele reino que agora era meu também, eu tinha sido admitido em um clube de poder ilimitado nas mãos. E “com grandes poderes, vem as grandes responsabilidades…”
O tempo passa… E com o tempo, a visão que se tem sobre a faixa vai mudando. Tudo muda.
A gente não percebe, é preciso que acontecimentos exteriores revelem a visão que os homens comuns têm sobre nós: Eles têm medo, amigos… Sim, medo. A faixa-preta tem um simbolismo ainda muito forte. Já está impregnado no inconsciente das pessoas comuns: – Cuidado! Aquele homem é perigoso! É um guerreiro! Saia do caminho dele! Os samurais pavimentaram um caminho de temor para quem usa uma faixa-preta…
Minha esposa foi a primeira pessoa que me alertou sobre isso: – Lawyer, cuidado com o seu jeito… Cuidado como você fala com as pessoas… As pessoas têm medo de você, até nossos amigos tem medo de você!
Tomei um grande susto quando ela me disse isso… Eu ????? Mas eu não fiz nada ????
Não precisamos nem fazer…
A minha “iluminação” veio numa festa do dia dos pais, no colégio das crianças… Os professores sugeriram a participação dos pais em atividades físicas com os meninos. Futebol, natação, Judô… Opa! Judô?? Perguntei ao Professor dos meninos se eu podia usar minha faixa-preta de Jiu-Jitsu, e ele topou na hora: – Lógico, vai ser uma honra, adoro Jiu-Jitsu!
Chequei lá, troquei o kimono no vestiário e fui pro tatame me alongar… Cena absolutamente comum para todos nós, nada de novo nisso, certo??? Errado…
Os pais foram chegando, ficando de pé em volta do tatame e só eu e o Professor de adultos no centro, combinando o que faríamos como demonstração… Claro que eu ia dar uns rolinhas com meus filhos também!
A apresentação foi um sucesso total, eu e o Professor demonstrando quedas básicas e depois com a criançada… Mas o que me despertou, definitivamente, foi a cara de espanto, os olhos mesmerizados daqueles pais para mim, de kimono com uma faixa negra na cintura! Acostumados volta-e-meia ver-me de terno na porta da escola para pegar as crianças, ver-me ali suado, vestindo um kimono já sambado de treino e com a tal faixa… Alguns não se contiveram e vieram me cumprimentar, com o clássico: – Eu jamais poderia imaginar!!!!
Sim, amigos! Essas faixas que devido ao tempo, parecem sempre ter sido minhas; que hoje amarro à cintura como o gesto mais trivial, também estão se transformando e continuam transformando o homem que as veste!
Carioca falou em humildade. Isso irmão! E acrescento tolerância, respeito, paciência… Porque esse caminho de aprendizado não termina e vai se transformando na medida em que passamos adiante nosso conhecimento.
E cuidado, Irmãos Faixas-Pretas e Coloridas, para que a impressão externa sobre vocês não seja a do medo! Num passado remoto era isso o que buscávamos, era o aço da guerra, e isso, sinceramente, fora do profissionalismo das lutas, não tem mais lugar do mundo! Um verdadeiro Mestre é um homem da paz, que constrói um mundo melhor, chega de guerras nesse mundo!
A faixa-preta é uma faixa-branca que escureceu. O que ela representa? A sua vida vai dizer…

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